O renascimento do Tu-160 Blackjack

Por: Ricardo N. Barbosa

Depois de um período de 25 anos após a última unidade ser fabricada, a Rússia prepara-se para reiniciar a produção do Tu-160, o plano também inclui a modernização de toda a frota e a integração de novos armamentos.

Um novo bombardeiro estratégico Tu-160 Blackjack fez seu primeiro voo oficial em Kazan em 25 de janeiro de 2018, com a presença do presidente Vladimir Putin. A palavra “oficial” é relativa, já que a aeronave 8-04 foi “rolada” para fora do hangar em 16 de novembro de 2017 e, na verdade, fez o primeiro voo no final de dezembro. O voo com a presença de Putin foi uma espécie de show midiático.

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A aeronave 8-04 foi “rolada” para fora do hangar em 16 de novembro de 2017.

O bombardeiro é chamado Pyotr Deynekin, nome do ex-comandante da Aviação Soviética de Longo Alcance, que se tornou o primeiro comandante-chefe da Força Aérea Russa pós-soviética entre 1992 e 1998. Pyotr Deynekin morreu em 19 de agosto de 2017. Todos os Tu-160 da Força Aérea Russa possuem o nome de ícones famosos, incluindo heróis míticos populares, pilotos famosos, designers de aeronaves e comandantes aéreos.

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O Tu-160 8-04 recebeu o nome de Pyotr Deynekin. Ex-comandante da Aviação Soviética de Longo Alcance.

O Tu-160 8-04 é a quarta aeronave da oitava série de produção e a 35ª aeronave construída, sem contar vários protótipos de testes em solo. A produção do Tu-160 na fábrica de aviação de Gorbunov Kazan funcionou entre 1984 e 1994, após esse período quatro células vazias permaneceram na fábrica. A aeronave 8-02 foi eventualmente completada e entregue às forças armadas em 1999, seguida da 8-03 em 2007. Após o primeiro voo da aeronave 8-04, apenas a 8-05 permanece na fábrica. Não incluindo a 8-04, a Força Aérea Russa atualmente tem 16 Tu-160s atribuídos ao 121st Regimento de Aviação de Bombeiros Pesados sediado na Base Aérea de Engels.

Nova Produção

A aeronave 8-04 foi completada por dois motivos: adicioná-la à frota de bombardeiros estratégicos russos e, mais significantemente, preparar a retomada da produção do Tu-160 em Kazan.

A nova produção começará com uma versão Tu-160M (izdeliye 70M), cuja configuração mantém o design original da estrutura e está equipada com motores melhorados e sistemas e armamentos totalmente novos. O primeiro Tu-160M novo deve fazer o seu primeiro voo em 2021. Além disso, no futuro, está planejada uma versão mais avançada, o Tu-160M2 (izdeliye 70M2). A unidade 8-04 entregue recentemente provavelmente seja do padrão Tu-160M1, a primeira etapa da modernização Tu-160M.

O reinício da produção do Tu-160 também ajudará na manutenção da frota atual, que cada vez mais carece de peças de reposição suficientes para as revisões.

Divulgada em abril de 2015, a decisão de retomar a produção em série provavelmente será iniciada um pouco mais cedo. O programa inteiro Tu-160M ​​e Tu-160M2 é extremamente importante para a Rússia e vem em um momento em que outros programas estão sendo cortados, porém esse está recebendo mais verbas.

O presidente da United Aircraft Corporation, Yuri Slyusar, descreveu a retomada da produção do Tu-160 como “um projeto gigante, sem precedentes na história pós-soviética de nossa indústria aeronáutica” e implementado em cooperação com “todas as empresas líderes da indústria aeronáutica russa”.

O Ministério da Defesa da Rússia ordenou os primeiros dez novos Tu-160M com preços de RUB 16 bilhões (aproximadamente USD 270 milhões) por aeronave no evento de 25 de janeiro de 2018 na presença de Vladimir Putin. Ele declarou sua intenção de solicitar 50 novos Blackjacks, com uma taxa de produção de 3 por ano.

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Assinatura do contrato estatal entre o Ministério da Defesa da Rússia e a Tupolev para a fabricação de 10 Tu-160M.

As operações contínuas do Tu-160 – e particularmente a produção de novas aeronaves – exigem novos motores. A empresa Kuznetsov, baseada em Samara, foi contratada em agosto de 2014 para reiniciar a produção dos motores NK-32 série 02 atualizados, após uma pausa na produção de quase 25 anos. Desenvolvido já em 1987, o motor NK-32-02 não entrou em produção devido a razões financeiras.

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NK-32-02 passando por testes de bancada.

O motor NK-32-02 possui compressor e lâminas da turbina com perfis melhorados, aerodinâmica interna e resfriamento mais eficientes. Como resultado, o consumo de combustível foi supostamente reduzido, mas o impulso de decolagem permaneceu inalterado em 25 toneladas. A Tupolev afirmou que os testes dos novos motores mostraram que um Tu-160 carregado com uma carga básica de seis mísseis de cruzeiro (um peso útil de 9,000kg) teria um alcance a Mach 0,77 de 13.950 km, cerca de 1.650km além da versão padrão. Está previsto para 2018 a entrega do primeiro lote de seis motores NK-32-02.

Perfil da Missão

Em sua missão intercontinental primária como portador de mísseis estratégicos, o Tu-160 voa com uma carga de seis mísseis de cruzeiro Kh-55  a Mach 0,77 entre 36.089 e 39.370 pés de altitude (11.000 a 12.000m) para atingir um alcance máximo de 12.300km sem reabastecimento em voo. Operando em nível de teatro, a aeronave penetra nas defesas aéreas inimigas voando a elevadas altitudes e a uma velocidade de Mach 1,6 (2.000km/h). O seu raio de combate a Mach 1,5 é de 2.000 km. O plano de voo de baixa altitude a 1.030km/h usando um sistema automático de seguimento/evasão do terreno não foi implementado.

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O Tu-160 possui duas grandes baias de armas capazes de transportar até 12 mísseis de cruzeiro.

Os armamentos são transportados exclusivamente dentro da fuselagem em duas baias de armas em tandem. O armamento básico para missões estratégicas compreende seis (até um máximo de 12) mísseis de cruzeiros subsônicos de longo alcance Raduga Kh-55SM transportados em um lançador giratório de seis rodadas em cada uma das baias. Os Tu-160 foram usados ​​em combate pela primeira vez em 17 de novembro de 2015, quando mísseis Kh-101 foram lançados contra alvos na Síria.

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Tu-160 ao lado de uma carga de 4 mísseis Kh-55SM.

O Tu-160 é um monoplano de quatro motores, todo-metal, de asa baixa e geometria variável. Os painéis móveis exteriores são configurados para três posições de asa selecionadas manualmente: 20° para decolagem e pouso, 35° para cruzeiro e 65° para voo supersônico. A tripulação de quatro pessoas está sentada em um cockpit comum pressurizado posicionado na parte superior do nariz da aeronave.

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O piloto-comandante ocupa o banco da frente, com o co-piloto do seu lado direito. Os assentos traseiros são ocupados pelo operador de navegação/armas ofensivas e pelo operador de navegação/guerra eletrônica/comunicação. O acesso ao cockpit é através do compartimento do trem de pouso do nariz.

Tu-160, o B-1B russo ?

Apesar de visualmente semelhantes, o Tu-160 Blackjack e o B-1B Lancer americano desempenham papeis completamente diferentes no teatro de operações.

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O Tu-160 é consideravelmente maior e especializado em penetração supersônica (Mach 1,6) a elevadas altitudes. Sua carga útil  é formada principlamente por mísseis de cruzeiro com ogiva convencional ou nuclear, o Tu-160 é literalmente um portador de mísseis estratégicos. Enquanto isso, o B-1B possui assinatura radar (RCS) aproximadamente 10 vezes menor no quadrante frontal (1m²), e é especializado em penetração subsônica (Mach 0,85) a baixa altitude. A sua carga útil é formada por mísseis de cruzeiro e bombas com ogivas convencionais, o B-1B “perdeu” sua capacidade de transportar armas nucleares em observação ao Tratado de Redução de Armas Estratégicas. Como todo sistema de armas, cada um é mais eficaz no seu perfil de missão.

Enquanto a Rússia reinicia a produção do Tu-160 e projeta uma vida útil operacional de pelo menos mais 50 anos, os EUA preparam-se para aposentar seu B-1B nas próximas duas década, tão logo o futuro bombardeiro estratégico B-21 Raider esteja plenamente operacional.

Atualização Tu-160M

Em 23 de outubro de 2014, foi aprovada a atualização de sistemas de missão e aviônica dos Tu-160s operacionais para o padrão Tu-160M.

Supostamente pronta no período 2020-2021, a atualização cobre a substituição do radar Obzor-K existente por um novo sistema de radar NV1.70 da família Novella, feito pela empresa Zaslon. O UKBP Design Bureau em Ulyanovsk está desenvolvendo um novo sistema de displays multifuncionais para a instalação no cockpit, que também inclui o conjunto de navegação NO-70M com navegação inercial BINS-SP-1, navegação astronômica ANS-2009M e um computador de navegação. Outros novos sistemas incluem um radar de navegação DISS-021-70, um receptor de navegação por satélite A737DP, um piloto automático ABSU-200MTs e um conjunto de comunicação S-505-70.

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O cockpit analógico do Tu-160 deve ser atualizado com displays multifuncionais.

Uma suíte de autodefesa Redut-70M totalmente nova está sendo projetada para as versões Tu-160M e Tu-160M2, e a empresa NII Kulon está desenvolvendo o sistema de reconhecimento BKR-70M.

Desde 2014, a fábrica de Kazan realizou atualizações para o padrão Tu-160M1 acompanhando as principais revisões. O Tu-160M1 é uma modernização do primeiro estágio Tu-160M sem as modificações mais complexas, como um novo radar e um cockpit com displays multifuncionais.

Simultaneamente, alguns sistemas anteriormente designados para a atualização foram removidos. Por exemplo, as aeronaves modernizadas possuem janelas cegas, em vez dos locais originais do sistema eletro-óptica OPB-18, localizadas em uma carenagem sob o nariz, o que implica que o sistema foi retirado.

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A janela do sistema eletro-optico OPB-18 foi “cegada”.

O primeiro avião operacional atualizado para o padrão M1 chamado ‘Andrey Tupolev’ chegou em Kazan em 16 de novembro de 2014 e retornou ao serviço da Força Aérea em 19 de dezembro de 2014. Hoje, diferentemente do que amplamente divulgado na mídia, a Força Aérea Russa possui cinco aeronaves atualizadas para a configuração M1 e não para a configuração M.

Nova Geração

Um dos objetivos estratégicos por trás da retomada da produção do Tu-160 é recuperar as competências da equipe de design, da planta de produção e subcontratados, tudo para criar as condições necessárias ao desenvolvimento do futuro bombardeiro de longo alcance da nova geração.

O trabalho atual sobre um novo bombardeiro pesado começou com o anúncio da concorrência Perspektivnyi Aviatsionnyi Kompleks Dalney Aviatsii (PAK-DA, Complexo Aéreo Futuro da Aviação de Longo Alcance) em 2007. A proposta da Tupolev foi selecionada e, em agosto de 2009, a empresa foi premiada com um contrato de três anos pelo Ministério da Defesa da Rússia para o programa de pesquisa. A Tupolev preparou um projeto preliminar para o bombardeiro izdeliye 80, que foi aprovado na primavera de 2013. Em 23 de dezembro desse ano, a United Aircraft Corporation recebeu um contrato de acompanhamento para o projeto detalhado do PAK-DA, que foi aprovado em 2016.

Em 2015, no entanto, a ideia de retomar a produção em série do Tu-160 foi apresentada e os planos para o programa PAK-DA foram adiados. O vice-ministro da Defesa, Yuri Borisov, anunciou que, devido ao lançamento do programa Tu-160M e Tu-160M2, o projeto PAK-DA seria adiado. Durante a cerimônia de 25 de janeiro em Kazan, o vice-primeiro ministro da Rússia, responsável pelo setor de defesa, Dmitry Rogozin, disse que os testes de voo do PAK-DA começariam no período 2023-2024.

Novos Mísseis

Independentemente dos programas de modernização dos bombardeiros, a Rússia está armando-os com novas armas. A partir de 2003, os bombardeiros Tu-160 e Tu-95MS foram adaptados para empregar mísseis Kh-555 convencionais: conversão do Kh-55 nuclear. Desde 2011, o Tu-160 também foi configurada para transportar até 12 mísseis nucleares Kh-102 e novos mísseis Kh-101 convencionais, ambos com uma célula baixo observável. O míssil Kh-101/Kh-102 é quase 1,4m mais longo e 1.000kg mais pesado que o Kh-55SM ou Kh-555. Como resultado, foi necessário desenvolver um novo e mais forte lançador rotativo de seis rodadas capaz de transportar mísseis Kh-101 e Kh-102 nas baías de armas do Tu-160. O alcance máximo de um míssil Kh-101 é estimada entre 3.000 e 4.000km; O alcance da versão Kh-102 é maior, entre 4.000km e 5.000km.

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O Kh-101/102 faz uso de uma célula facetada para diminuir a assinatura radar (RCS).

A empresa Raduga, com sede em Dubna, está desenvolvendo o míssil de cruzeiro estratégico de longo alcance Kh-BD (Bolshoy Dalnosti), que é uma versão estendida do Kh-101/Kh-102 para utilizar o espaço disponível na baía de armas do Tu-160. Algumas fontes russas afirmam que o Kh-BD foi projetado com um alcance de 7.000km.

Quando o trabalho de design do bombardeiro Tu-160 começou em 1972, o mesmo seria armado com dois mísseis Kh-45 de 10,80m, as baías de armas foram projetadas de acordo com um comprimento de 11,30m. Depois que o projeto da aeronave foi congelado, o armamento do Tu-160 foi modificado para o míssil de cruzeiro subsônico Kh-55 (AS-15 Kent) de 6m, o que significa que há um espaço vazio dentro das baías das armas, mesmo quando carregado com mísseis Kh-101 de 7,4m.

Dois outros novos mísseis que estão em desenvolvimento para os bombardeiros russos de longo alcance são os Kh-SD e GZUR. Ambos possuem 6m de comprimento, 1,4m a menos do que o Kh-101, para caber nas baias de armas do Tu-22M3 e Tu-95MS. Ambos os mísseis têm um alcance de 1.500km. Cada um usa uma abordagem diferente para sobreviver em um ambiente de defesa aérea pesada.

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Design do Kh-SD com base em uma patente preenchida pela KTRV. (Piotr Butowski)

O Kh-SD de médio alcance da Raduga (SD de Sredney Dalnosti – Médio Alcance) é um mísseis de cruzeiro subsônico com uma célula steatlh, semelhante ao míssil americano AGM-158 Joint Air-to-Surface Míssil Stand-off (JASSM), o mesmo será equipado com o mesmo sistema de orientação do míssil estratégico Kh-101. Alimentado por um motor turbofan OMKB izdeliye 37-04 (ou TRDD-50B), espera-se que o míssil tenha um alcance de 1.500km, uma velocidade de cruzeiro de 700km/h e um velocidade máxima de 950km/h. O Tu-160M ​/Tu-160M2 poderá transportar até 12 em dois lançadores rotativos internos. O Kh-SD é também conhecido como X-50, quando estiver operacional provavelmente irá se chamar Kh-50.

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O Kh-50 será 1,4m mais curto que o Kh-101 para caber nas baias de armas de todos os bombardeiros russos.

Desenvolvido conjuntamente pela Raduga e o Tactical Missiles Corporation, o GZUR (Giper-Zvukovaya Upravlaemaya Raketa; Míssil Guiado Hipersônico) é especulado com uma velocidade de Mach 6, com capacidade de atingir vários alvos de superfície e com uma provável missão principal como míssil anti-navio. A aquisição dos mísseis Kh-SD e GZUR está planejada pelo Programa de Armamento Estatal da Rússia para 2018-2027.

Assinando: Ricardo N. Barbosa

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