Dominando a guerra eletrônica com o F-35 !

O F-35 possui um design baixo observável que diminui principalmente sua assinatura radar (RCS). Essa é a principal razão pela qual os F-35s estão conseguindo uma relação de abate de 20 para 1 em combates simulados. Mas há mais na capacidade de sobrevivência e efetividade do F-35 do que a furtividade. Todas as três variantes estão equipadas com um sistema de guerra eletrônica altamente automatizado e poderoso. 

Por: Ricardo N. Barbosa

Guerra eletrônica – GE (Eletronic Warfare – EW em inglês) engloba todas as ações militares realizadas para assegurar o uso eficaz das próprias emissões eletromagnética  e para impedir, reduzir ou prevenir que o inimigo possa fazer uso eficaz de suas emissões. A EW pode ser dividida em medidas de apoio a guerra eletrônica, contramedidas eletrônicas e contra-contramedidas eletrônicas.

O ASQ-239 Barracuda  produzido pela BAE Systems é o sistema de guerra eletrônica e contramedidas primário do F-35. Trata-se de uma suíte integrada de hardware e software projetada para  fornecer ao piloto uma consciência situacional máxima, ajudando a identificar, monitorar, analisar e responder às ameaças no espectro eletromagnético. Aviônicos e sensores avançados oferecem uma visão de 360° em tempo real do campo de batalha, ajudando a maximizar os intervalos de detecção e fornecendo ao piloto opções para escapar, engajar, conter ou bloquear ameaças.

1. Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica (MAGE/ESM)

O núcleo do ASQ-239 Barracuda atua principalmente na aplicação de medidas de apoio à guerra eletrônica (MAGE), também conhecidas pelo termo em inglês ESM (Electronic Support Measures). Uma suíte ESM atua de forma passiva no espectro eletromagnético, ou seja, não emite qualquer sinal eletromagnético para desempenhar suas funções, tornando-a ideal para o sistema de guerra eletrônica de um caça furtivo como o F-35.

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O ASQ-239 Barracuda é o núcleo do sistema EW do F-35.

As medias de apoio à guerra eletrônica realizam ações para buscar, interceptar, detectar, identificar, monitorar, gravar/registrar e analisar a energia de radiofrequência (RF) irradiada no campo de batalha, explorando-as para proveito das operações táticas e para o rápido reconhecimento de uma ameaça. Em termos leigos, o Barracuda vai promover a construção da ordem de batalha eletrônica do teatro de operações ao “farejar” as emissões RF em busca de sinais hostis.

Apesar de contar com o receptor de alerta radar RWR – (Radar Warning Receivers) ASQ-AAQ-37, o Barracuda não deve ser confundido em sua aplicação ESM com os RWR tradicionalmente utilizados em caças de quarta geração. O RWR legado prioriza a rápida detecção e alerta dos sinais de radares em volta da aeronave, porém com baixa precisão na geolocalização da fonte emissora. É otimizado para a rápida transferência de dados, coletando apenas dados suficientes e realizando apenas o processamento necessário para identificar sem ambiguidade o tipo de ameaça.

Para a aplicação ESM utiliza-se antenas de elevado ganho, que possuem mais sensibilidade e maior precisão na geolocalização da fonte emissora. A principal diferença em relação ao RWR é que a ESM realiza uma análise mais detalhada dos sinais recebidos. Ela normalmente medirá e registrará todos os parâmetros do sinal. Pode inclusive determinar a localização dos emissores com precisão suficiente para apoiar o emprego de armas. Figuras públicas sobre a aplicação ESM do F-35 apontam uma precisão angular de apenas 1 grau².

O Barracuda na aplicação ESM é composto por inúmeros sensores e foi projetado desde o início para uma integração máxima, é capaz de operar não só com outros componentes dentro da aeronave, como o radar APG-81, mas também pode operar com outros F-35s através do link de dados MADL (Multifunction Advanced Data Link) para executar operações EW em conjunto. Trata-se de uma evolução do AN/ALR-94, que é descrito como a parte da aviônica mais complexa e dispendiosa do F-22, mas que no F-35 tem duas vezes a confiabilidade e custa um quarto do ALR-94.

Dez antenas receptoras conformais estão espalhadas nas asas e profundores do F-35, quatro cobrem a banda 2 (4 a 8GHz) e seis cobrem as bandas 3/4 (8 a 60GHz). No F-35C as antenas da banda 3/4 são maiores do que as usadas nas variantes A e B e estão mais próximas. Essas antenas são utilizadas tanto para aplicação RWR como ESM. Para efeito de comparação, o sistema RWR/ESM do Rafale (Spectra), apontado por muitos como o mais avançado em um caça legado (que não seja da quinta geração), utiliza 4 antenas receptoras na banda correspondente.

Além das 10 antena receptoras, o radar APG-81 também pode ser utilizado de forma passiva como uma antena receptora de grande abertura (grande eficácia em receber ondas eletromagnéticas) e banda estreita (cobre uma pequena faixa de frequências).

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O F-35 utiliza 10 antenas receptoras RWR/ESM.

Um banco de dados de emissões conhecidas é utilizado para identificar a fonte emissora, se a fonte for desconhecida, o Barracuda pode atuar como uma plataforma ELINT e armazenar seus parâmetros para futura classificação. A USAF está desenvolvendo 12 arquivos de dados de missão diferentes para 12 regiões geográficas diferentes. Os arquivos de dados de missão são essencialmente um banco de dados de ameaças conhecidas e aeronaves amigáveis ​​em partes específicas do mundo. 

A curta distância ou contra alvos usando jammers, o Barracuda é capaz de intercalar busca e rastreio de banda estreita, fornecendo a distância e velocidade do alvo com precisão suficiente para disparar um míssil sem a necessidade do APG-81 ou de uma triangulação com outro F-35, permitindo assim uma esfera de designação de alvos de 360°.

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1 F-35 geolocaliza um emissor mais rápido do que 3 F-16CJ.

Um único F-35 pode detectar, rastrear e geolocalizar um emissor em solo mais rápido e com maior precisão do que 3 F-16CJ trabalhando juntos.  O F-16CJ é uma versão especializada em SEAD do F-16C Block 50/52 e está equipado com o pod AN/ASQ-213 HTS, ou seja, possui uma capacide ESM superior a qualquer outro F-16C Block 50/52 padrão. Portanto, não há dúvidas de que na aplicação ESM o F-35 é capaz de detectar, classificar e localizar geograficamente emissores hostis muito mais rápido do que qualquer caça de quarta geração.

2. Contramedidas Eletrônicas – CME

As CME do F-35 são controladas pelo ASQ-239 Barracuda após esse fazer a análise da ameaça com a suíte MAGE. Contramedidas eletrônicas – CME (Electronic Countermeasures – ECM em inglês) são todas as medidas que visam impedir, reduzir ou prevenir que o inimigo possa fazer uso eficaz de suas emissões eletromagnéticas. Em termos mais leigos, na aviação de caça, as ECM visam degradar principalmente a eficácia dos radares adversários em aeronaves, mísseis ou na superfície. As ECM podem ser dividas em passivas e ativas . ECMs passivas são os decoys descartáveis e ECMs ativas são os sistemas e técnicas interferentes (jammers e jamming).

2.1 Radar AESA Jammer

Tradicionalmente caças legados utilizam jammers orgânicos de autoproteção com pequenas antenas emissoras espalhadas pela fuselagem ou pods jammers sob a fuselagem e/ou asas, que podem ser utilizados para autoproteção ou para a escolta de outras aeronaves. A título de exemplo, temos o sistema EW Spectra utilizado pelo Rafale para autoproteção; o pod jammer de autoproteção ALQ-184 utilizado pelo F-16C  e o pod ALQ-99 para jamming de escolta utilizado pelo EA-18 Growler.

No F-35 o Barracuda utiliza o próprio radar AESA APG-81 como uma poderosa antena jamming capaz de interferir nas emissões dos radares adversários. Na verdade, radares de varredura eletrônica são jammers em potencial, principalmente os radares AESA, mas na prática é necessário que o mesmo esteja completamente integrado com a suíte ESM da aeronave, já que essa ultima irá comandar as ações de contramedidas após a analise dos sinais a serem bloqueados. Hoje, somente o F-22 e o F-35 possuem radares com essa capacidade operacional.

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O F-35 utiliza o próprio radar como um poderoso jammer.

A vantagem de utilizar o radar como jammer é o seu elevado poder de emissão e ganho. O APG-81 possui uma antena com 1.626 módulos T/R, se cada um tiver 10W de potência de pico (projeção bastante conservadora), você terá um jammer com 16KW de potência de pico. Mais do que qualquer jammer orgânico ou pod jammer, que tipicamente possuem pulsos de onda com potência de pico entre 0,1 e 10KW.

O ganho, de forma simplificada, refere-se a quanto da energia que sai de uma antena é focada em uma direção específica. O APG-81 e sua antena AESA com aproximadamente 780mm de diâmetro possui um ganho próximo de 38dBi na banda-X, pode assim formar um feixe de onda muito mais estreito e focalizado na banda-X do que qualquer jammer orgânico ou pod jammer com suas pequenas antenas, esses possuem ganho na ordem dos 8dBi e 18dBi respectivamente. A vantagem de +30dBi e +20dBi do APG-81 sobre esses últimos significa uma capacidade 1.000 e 100 vezes maior de focalizar a energia irradiada. O sinal interferente altamente direcionado também permite que emissores em locais específicos possam ser bloqueados sem causar efeitos colaterais em outras partes do campo de batalha.

A soma da potência e ganho do APG-81 entregam um jammer com potência irradiado efetivo na banda-X muito maior do que qualquer aeronave de caça legado, inclusive aeronaves especializadas em EW. A potência irradiada efetiva – ERP (effective radiated power) é formada pela soma, em dB, da potência do sinal (Ps) de uma antena e seu ganho (G). Em termos leigos, ao somar a potência e ganho do sinal, a ERP determina a potência do sinal que realmente chega ao alvo, já que dependo do ganho da antena, muito sinal pode ser desperdiçado com um feixe de onda largo e menos focalizado.

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1 F-35 possui poder jamming 10 vezes maior do que o EA-18G.

A figura pública da capacidade de jamming do F-35 aponta que o mesmo possui uma potência irradiada efetiva na banda-X dez vezes maior do que o EA-6B Prowler e EA-18 Growler, aeronaves especializadas em EW e equipadas com até 5 pods de escolta jamming ALQ-99.

E em vez do familiar cone de varredura, o feixe do F-35 é mais parecido com um laser, capaz de focar em um alvo específico ou em múltiplos alvos (o número exato é classificado) com dez vezes o poder de um EA-6B Prowler.”

Fonte: The Joint Strike Fighter: Driven by data

É importante observar, porém, que uma potência irradiada efetiva 10 vezes maior para o F-35 na banda-X não torna o EA-18G obsoleto, esse último pode cobrir bandas mais baixas e uma região de 360° em volta da aeronave, enquanto o APG-81 do  F-35 cobre principalmente a banda-X e uma região de no máximo 140° no aspecto frontal da aeronave. Além disso, o novo pod NGJ em desenvolvimento para o EA-18G conta com antenas AESA e módulos T/R de GaN que prometem entregar uma ERP 10 vezes maior em relação ao ALQ-99.

Enquanto caças legados usam o jammer orgânicos e pods de forma defensiva, para a autoproteção, a potência irradiada efetiva do APG-81 permite ao F-35 atuar como uma aeronave “especializada” em EW,  praticando jamming de escolta ao proteger outras aeronaves dentro de sua nuvem de interferência. O jammer de caças legados como o Rafale e F-16C não evita a detecção, o mesmo é usado para quebrar o bloqueio dos radares na fase de rastreamento e direcionamento de tiro, além disso cobre apenas a própria aeronave.

O EA-18G é especializado em jamming  do tipo escolta modificada, o jamming ocorre dentro do espaço aéreo defendido, mas fora do alcance de interceptação dos sistemas de defesa antiaérea conhecidos. Com um RCS reduzido, o F-35 pode praticar um jamming do tipo escolta de penetração, o jamming ocorre dentro do alcance de interceptação dos sistemas de defesa antiaérea conhecidos. O jamming de penetração aumenta ainda mais a eficácia da escolta jamming, já que o jammer está muito mais próximo da ameaça, o sinal jamming varia seu poder com o inverso do quadrado da distância entre o jammer e o radar a ser bloqueado, ou seja, um sinal jamming emitido duas vezes mais próximo terá uma energia 4 vezes maior sobre a radar bloqueado.

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O F-35 pode realizar jamming de escolta de penetração.

Como apontado anteriormente, a desvantagem do APG-81 como jammer é o campo de observação limitado aos 140° no aspecto frontal da aeronave, que é o campo de observação máximo de uma antena AESA fixa. A banda estreita é outra limitação, já que o radar opera apenas na banda-X. Na verdade, mesmo operando na banda-X, que é a principal banda de atuação dos radares de engajamento, atuando como jammer o APG-81 provavelmente pode cobrir uma banda mais larga, mesmo que de forma menos efetiva.

Um patente de 1980 mostra como um radar na banda-X pode atuar como jammer em uma banda mais larga:

“As células de transmissão-recepção são totalmente funcionais em frequências de rádio de banda estreita e banda larga. Na banda estreita de 9,2 a 10,2 GHz a antena AESA opera como um sistema de radar. Na banda larga de 2,0 a 20,0 GHz a antena AESA é totalmente funcional em contramedidas eletrônicas e interferência de radiofrequência.

Fonte: https://patents.google.com/patent/US4823136

A assinatura radar (RCS) do F-35 também influi diretamente na efetividades de suas contramedidas eletrônicas. Com um RCS 10.000 vezes menor do que um caça legado, o F-35 necessita de um poder jamming 10.000 vezes menor para conseguir a mesma efetividade dentro de uma nuvem de interferência. O absurdo é que o F-35 na verdade utiliza um poder jamming 10 vezes maior na banda-X, que aliado ao RCS reduzido formam uma relação jamming/sinal (J/S) 100.000 vezes mais eficiente na banda-X do que um caça legado F-16C protegido por um EA-18G especializado em guerra eletrônica. 

O F-35 pode utilizar técnicas de interferência por ruído, enganosa e de rede, além de ter capacidade de guerra cibernética – capacidade de instalar malware na rede de defesa antiaérea hostil. Temos algumas constatações interessantes sobre os recursos EW do F-35.

“O cenário inicial era que nossos dois F-35s escoltariam quatro F-16s através de uma fronteira imaginária e os protegeria contra outros oito F-16s simulando um adversário moderno. Um líder de voo relativamente inexperiente estava encarregado dos F-16 do nosso lado e o Tenente-Coronel Joost ‘Niki’ Luijsterburg, o comandante do destacamento de Tucson, era responsável pelos adversários.

Precisávamos proteger os F-16 amigáveis, maximizar a letalidade de seus mísseis e levá-los ao alvo. Para que isso acontecesse, planejamos inicialmente usar um ataque eletrônico contra os F-16 adversários, para evitar que eles detectassem os caças amigáveis, ​​enquanto transmitíamos via datalink a localização das aeronaves hostis aos nossos F-16… O plano funcionou sem falhas.

No debriefing, ‘Niki’ nos disse que foi uma das saídas mais memoráveis ​​que ele já pilotou. Tendo trabalhado anteriormente no escritório do programa F-35, ele ficou feliz em descobrir o quão efetivo o F-35 era, mas ao mesmo tempo ele estava frustrado por não ter obtido um único tiro contra nós, enquanto era morto várias vezes.”

Fonte: Out Of The Shadows: RNLAF experiences with the F-35A – Combat Aircraft Magazine May 2018

Em um teste durante o seu desenvolvimento, o sistema EW  do F-35 foi capaz de bloquear o APG-77, que era apontado como o radar mais avançado a equipar uma aeronave de caça, o F-22 Raptor. Na verdade, o próprio APG-77 a partir da versão APG-77(V)1 passou a adotar os mesmos módulos T/R do APG-81, igualando ou até superando alguns parâmetros desse último, já que conta com mais módulos T/R e uma abertura maior.

“Um Boeing 737 que transporta todo o sistema de aviônica do F-35 Joint Strike Fighter envolveu uma força mista de F-22 e F-15 e foi capaz de localizar e bloquear os radares dos F-22s.”

Fonte: China’s Stealth Aircraft Program Will Face Advanced Defenses

Uma das coisas que tornam única a capacidade EW do F-35 é como o ASQ-239 Barracuda foi projetado – ele foi projetado desde o início com uma integração profunda, é capaz de executar EW junto com outros F-35s. Você pode ter 4 F-35s realizando operações EW como uma entidade única, aumentando significativamente o efeito de interferência (jamming).

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Vários F-35s podem realizar um jamming coordenado.

Mesmo contra radares avançados, quando a interferência por ruído de banda larga é o único recurso. Uma formação de 4 ou mais F-35s pode realizar uma transmissão alternada, tornando impossível para o sistema RF passivo do inimigo localizar a fonte de interferência, ou até mesmo dividir o poder de interferência total de tal forma que o efeito de interferência de rede supere o radar do inimigo, mas cada F-35 individual transmite apenas uma fração do poder total de interferência.

Para começar, o radar APG-81 do F-35 não é mais apenas um radar. “É uma matriz multifuncional” que combina automaticamente informações de “milhares de radares” na aeronave, explica O’Bryan. E em vez do familiar cone de varredura, o feixe do F-35 é mais parecido com um laser, capaz de focar em um alvo específico ou em múltiplos alvos com dez vezes o poder de um EA-6B Prowler, diz ele.

Além disso, uma formação de quatro F-35s pode alternar a transmissão do sinal de interferência entre si, novamente automaticamente. E com capacidade stealth, uma ou todas as quatro aeronaves podem operar dentro da zona de tiro do alvo.

“Você começa com 10 vezes mais potência, e se você está muito mais perto e você está alternando sinais entre quatro aeronaves com um link de dados furtivo entre eles, você pode fazer essa interferência de uma maneira coerente e cooperativa.”

Fonte: The Joint Strike Fighter: Driven by data

Não menos importante, você tem os recursos de guerra cibernética do F-35, a capacidade de plantar malwares em radares e redes de anúncios. Esta é uma área muito raramente discutida no domínio público, mas que pode ter um impacto sério no combate do século XXI.

2.2 Despistadores Rebocados

O F-35 não foi o primeiro caça a utilizar o radar como jammer, título que pertence ao F-22, mas será o primeiro caça furtivo a utilizar despistadores (decoys) rebocados para apoiar suas contramedidas eletrônicas. Os despistadores rebocados são corpos aerodinâmicos rebocados a dezenas de metros atrás da aeronave a ser protegida. O objetivo dos mesmos é fazer o radar ou míssil pensar que ele é o alvo legítimo, protegendo a plataforma que o reboca, ou atuar como um jammer emitindo um sinal interferente contra o radar hostil.

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O ALE-70 da BAE System será o decoy rebocado do F-35.

O controle das emissões do despistador será feito pelo Barracuda através de um cabo de  fibra óptica lingando o F-35 ao mesmo, que irá emitir formas de onda para confundir ou atrair radares adversários ou armas guiadas por radar. Despistadores rebocados limitam a capacidade de manobra da aeronave, de modo que são utilizados principalmente contra ameaças de superfície. A BAE System será  fornecedora do sistema para o F-35, enquanto não estiverem sendo utilizados um total de 4 ALE-70 serão alojado dentro de um compartimento sob fuselagem.

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Quatro decoys serão alojados em um compartimento interno.

A utilização do ALE-70 resolve em parte o problema do campo de observação do radar do F-35, que pode atuar como jammer, mas cobre  apenas um cone de no máximo 140° no aspecto frontal da aeronave. Como jammer, o ALE-70 pode cobrir uma banda e uma região maior de interferência em relação ao radar.

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Decoy rebocado protege a aeronave contra mísseis HOJ.

Um chamariz rebocado também impede que mísseis no modo HOJ (Home-on-Jam), capazes de seguirem a fonte de interferência por ruído, atinjam a aeronave. Mesmo não emitindo um sinal interferente tão poderoso quanto o radar, o baixo RCS do F-35 vai maximizar a eficácia do ALE-70, tornando-o mais efetivo na proteção do F-35 do que os decoys rebocados ou jammers orgânicos usados para proteger caças legados.

3. Contra-Contramedidas  Eletrônicas (CCE)

Contra-Contramedidas Eletrônicas – ECCM (Electronic Counter-Countermeasures) pode ser entendida como a capacidade de resistir às contramedidas eletrônicas do adversário, que na aviação de combate visam degradar principalmente a eficácia dos radares em campo, já que esses são os principais responsáveis pela consciência situacional além do alcance visual. Logo, um complexo de radar capaz de manter-se efetivo dentro de um ambiente eletromagnético contestado é indispensável em qualquer teatro de operações.

Para impedir que o radar seja bloqueado por uma nuvem de interferência, deve-se evitar que seus sinais sejam interceptados ou detectados. Se você não pode interceptar ou detectar um sinal, você será muito menos eficiente em bloqueá-lo. Para satisfazer esses requisitos, o radar AESA APG-81 do F-35 utiliza modernas técnicas LPI – low probability of intercept (baixa probabilidade de interceptação) e LPD – low probability of detection (baixa probabilidade de detecção). Além disso, um radar LPI/LPD é essencial  para a manutenção da baixa observabilidade do F-35, caso contrário o inimigo poderia rastrear suas emissões e localiza-lo prematuramente.

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Comparativo da performance de um sistema LPI.

Na imagem comparativa acima, retirado do livro Introduction to RF Stealth”, um radar LPI, com o mesmo alcance de detecção de um análogo sem LPI, consegue diminuir o alcance de interceptação de seus sinais por sistemas de alerta radar (RHAW), inteligência eletrônica (ELINT) e míssil antirradiação (ARM) em 40, 113 e 114 vezes respectivamente.

Não existe um conceito pacificado do que seria interceptação e detecção de um sinal, logo não existe uma diferença clara entre LPI e LPD. O conceito mais aceito é o de que um radar LPI deva evitar que a ESM adversária esteja com a antena receptora corretamente apontada e configurada na sua frequência de emissão. LPD seria a capacidade de evitar que a ESM, mesmo estando com a antena devidamente apontada e configurada na frequência correta, consiga reconhecer que o sinal foi interceptado. LPI/LPD envolve tanto software como hardware, técnicas LPI/LPD existem desde os radares com antena de varredura mecânica (MSA), mas foi o radar AESA que trouxe sua eficácia para um nível tático sem precedentes.

Entre as técnicas LPI/LPD do APG-81 podemos destacar: a formação de vários feixes de onda em frequências diferentes, enquanto os radares MSA e PESA  formam um único feixe de onda por vez; banda de operação muito mais larga, ou seja, pode emitir dentro de um intervalo maior de frequências, inclusive no mesmo feixe de onda; agilidade de frequência que permite ao APG-81 mudar em pelo menos  1.000 vezes por segundo a frequência de operação de seus feixes de onda.

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O F-35 forma vários feixes de onda em diferentes frequências.

O Barracuda, através do controle de emissões, desempenha um papel muito importante nas técnicas LPI/LPD do APG-81. Qualquer ameaça distante, que esteja emitindo e sendo rastreada através de suas emissões RF ou IR, será acompanhada sem o envolvimento do radar, ou com o mínimo de envolvimento. O radar só será chamado para atuar contra ameaças prioritárias, normalmente as mais próximas ou com elevada velocidade de fechamento.

Um alvo que foi detectado ou esteja sendo rastreado nunca receberá mais energia radar do que a necessária (gerenciamento de potência), o radar diminui a energia emitida conforme a aproximação do alvo, irradia o suficiente apenas para manter o contato. Além disso, o APG-81 pode acompanhar cada alvo com um feixe estreito e exclusivo. Isso evita que o radar espalha radiação desnecessária pelo campo de batalha, que poderia ser detectada pela ESM adversária.

O APG-81 também faz o gerenciamento de potência através de um ciclo de trabalho mais elevado, característica inerente de um radar AESA, isso significa que ele trabalha com uma potência média maior do que os radares legado. Sistemas RWR/ESM são sensibilizados através da potência de pico de sucessivos pulsos de onda, com uma potencia média maior o APG-81 pode utilizar uma potência de pico menor para dificultar o trabalho dos sistemas RWR/ESM adversários.

A agilidade de frequência torna o radar AESA muito mais difícil de ser bloqueado. Tradicionalmente, os jammers modernos têm operado através de técnicas DRFM, determinando a frequência de operação do radar e então transmitindo um sinal para confundir o receptor sobre qual é o pulso real e qual é o falso. Essa técnica funciona desde que o radar não possa alterar facilmente sua frequência de operação. Embora seja possível enviar ruído de banda larga contra todas as possíveis frequências, isso significa que a quantidade de energia enviada em qualquer frequência é muito menor, reduzindo a eficácia do jammer.

Em seus testes, graças a sua agilidade de frequência e banda larga, o APG-81 superou todas as expectativas em termos de resistência ao bloqueio eletrônico (Contra-Contramedidas Electrónicas), ganhando o prêmio David Packard por esse feito.

Sumário

Apesar de centrar sua sobrevivência na baixa observabilidade, o F-35 foi equipado com um dos sistemas de guerra eletrônica mais capazes do mundo. O ASQ-239 Barracuda aplicando ESM pode geolocalizar uma fonte emissora mais rápido do que 3 F-16CJ trabalhando em conjunto e entregar um poder de bloqueio na banda-X equivalente a 10 aeronaves especializadas em guerra eletrônica. Para superar as contramedidas adversárias e garantir a eficácia de suas emissões, o Barracuda usa as mais modernas técnicas LPI/LPD, que são alavancadas pelo radar AESA APG-81. O F-35 ao lado do F-22 são os primeiros caças a utilizarem o próprio radar como jammer, com o F-35 tornando-se o primeiro caça furtivo a utilizar decoys rebocados.

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