Análise do fratricídio do Il-20, perspectiva russa.

No dia 17 de setembro, por volta das 23h, horário de Moscou, uma aeronave militar russa Ilyushin Il-20M, utilizada em missões de inteligência de sinais (SIGINT) sobre a Síria, foi abatida por fogo amigo de um sistema de defesa antiaérea S-200 sírio,  quando retornava à base aérea de Khmeimin, a 35km da costa síria, exato momento em que caças F-16 da Força Aérea Israelense (IAF) atacavam alvos na província síria de Latakia.

S-200 Angara (SA-5 Gammon)

 O S-200 é um sistema de defesa antiaérea estratégico de longo alcance originário da URSS e capaz de engajar alvos entre 150-300km de distância, dependendo do modelo. Cada bateria é normalmente composta por até 6 lançadores com 1 míssil 5V21/28 por lançador. O míssil utiliza um radar semi-ativo como sistema de orientação na fase terminal. O míssil carrega um transmissor de downlink para enviar informações de status para o radar de engajamento. A bateria S-200 estava localizada em Homs, a aproximadamente 100km do  Il-20.

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Situação tática geral durante o incidente.
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Míssil 5V21/28 do sistema S-200.

Dados do S-400  Triumph

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Segundo o porta voz do Ministério da Defesa da Rússia, “dados recolhidos do sistema de defesa antiaérea S-400 na base aérea russa de Khmeimim, na província de Latakia, na Síria, revelaram que o míssil antiaéreo sírio estava, de fato, mirando um caça F-16 israelense antes de alterar abruptamente seu curso e eventualmente atingir o avião russo. O F-16  estava de fato usando o Il-20 como cobertura,” disse o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, general Igor Konashenkov.

É importante observar que os dados divulgados são na verdade oriundos de um Posto de Controle de Combate (PCC) 55K6, que trabalha com dados do radar de aquisição 91N6 Big Bird do sistema de defesa antiaérea S-400. Representam, portanto, uma visão na perspectiva do radar 91N6 Big Bird em Khmeimim.

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Posto de Controle de Combate 55K6.
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Cabine do PCC 55K6.
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Radar de aquisição 91N6 Big Bird.

A sequência de imagens permitem traçar um histórico da situação tática que levou ao fratricídio do Il-20, as mesmas detalham o trajeto dos envolvidos no teatro de operações:

Imagem 1

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A primeira imagem, tomada as 22:01:27, mostra 3 F-16 afastados e 1 F-16 (amarelo) a aproximadamente 40km do Il-20 (azul), enquanto o míssil do sistema S-200 (vermelho) estava a aproximadamente 60km do Il-20 e a 100km do F-16.

Imagem 2

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Nesta segunda imagem é possível observar a altitude dos envolvidos, o Il-20 estava a 5.000m, o F-16 a 9.000m e o míssil do S-200 a 15.000m.

Imagem 3

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A imagem 3 alegadamente atesta que o míssil estava em rota de interceptação contra o F-16, com o Il-20 quase cortando a linha de interceptação e posicionando-se entre o F-16 e o míssil.

Imagem 4

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A imagem 4, tomada as 22:02:45, mostra o míssil interceptador bastante próximo do Il-20 e a segundos de impactar contra o mesmo, neste momento, o F-16 estava a aproximadamente 30-35km do Il-20, mas a diminuição da distância foi iniciativa do Il-20, já que o F-16 encontra-se praticamente no mesmo local na tela do radar.

Imagem 5

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A imagem 5, também tomada as 22:02:45, mas em outra perspectiva, mostra os segundos finais antes do impacto do míssil, que encontrava-se praticamente no mesmo nível do Il-20, enquanto o F-16 estava 5.000m mais elevado e a 30-35km de distância.

Conclusão

Segundo as imagens de radar, o Il-20 estava entre o F-16 da IAF e o míssil interceptador, uma situação potencialmente perigosa, mas o F-16 da IAF estava inicialmente 40km atrás do IL-20 e 4.000m mais elevado. Logo, não é correto afirmar que o F-16 usou o Il-20 como escudo, tendo em vista a grande distâncias que os separava, inclusive em altitude.

Quando o operador do SAM S-200 tomou a iniciativa de engajar o F-16, o mesmo estava ciente da presença de uma aeronave com assinatura radar muito maior entre o SAM e o F-16. O operador do SAM assumiu o risco, porém, um risco controlado, já que radares de controle de fogo devem ser capazes de diferenciar alvos próximos, inclusive no mesmo quadrante angular, desde que espaçados algumas centenas de metros em profundidade, o F-16 estava 40km atrás do Il-20.

O intrigante é que no decorrer do tempo o Il-20 deslocou-se em direção ao F-16, enquanto o F-16 manteve praticamente a mesma posição e ainda ganhou mais 1.000m de altitude. O deslocamento do Il-20 provavelmente seguia a rota de aproximação prevista para o pouso na  base aérea de Khmeimin. Porém, uma aeronave de caça, ao ser iluminada por um radar de engajamento em solo, normalmente baixa de nível, convertendo altitude em velocidade, levando o míssil interceptador para uma atmosfera mais densa e descendo para abaixo do horizonte radar do radar iluminante. O F-16, porém, praticamente ignorou o S-200.

A conclusão mais sensata é a de que o S-200 foi incapaz de diferenciar entre dois alvos separados em 30-40km e por 1.000m de altitude. O operador do SAM assumiu um risco inicialmente controlado, enquanto o F-16 em momento algum deslocou-se em direção ao Il-20, se quer reagiu ao S-200.

A retórica russa, alegando que o F-16 usou o Il-20 como escudo, provavelmente visa desviar o foco da defesa antiaérea síria, em que pese o S-200 ser um sistema datado, viu seu SAM, de origem “russa”, falhar em isolar alvos relativamente distantes. A única dúvida é se o erro do S-200 foi apenas técnico, ou também humano. A investigação deve apontar se o operador do SAM, ao engajar o F-16 nessas condições, assumiu um risco dentro das especificações técnicas do sistema, que deveria isolar o F-16 do Il-20, ou extrapolou as mesmas.

Assinado: Ricardo N. Barbosa

3 comentários sobre “Análise do fratricídio do Il-20, perspectiva russa.

  1. Ricardo, e sobre a perspectiva israelense, o que seria aquele F-16 voando na frente dos outros 3, designação de alvo?
    Quais as possibilidades de o sistemas de EW dos F-16 terem interferido no S-200 Sírio?

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    1. IAF alega que seus F-16 já estavam sobre Israel no momento do ocorrido. Na verdade é intrigante 1 F-16 isolado dos demais. Caças normalmente operam em dupla. Particularmente acho que o sistema S-200 falhou, se de fato existia um F-16 a 40km. Se não existia então o operador do SAM confundiu o Il-20.

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  2. Uma analise tecnica bastante esclarecedora. Se a investigacao comprovar que esses fatos sao veridicos entao isso mostra a incompetencia dos operadores do sistema e a tentativa russa de encobrir o erro.

    Parabens pela excelente materia!

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