Sukhoi Su-35S vs Eurofighter Typhoon, dogfight sobre a Europa

O Eurofighter Typhoon é o principal caça de superioridade aérea da Europa, enquanto isso o Sukhoi Su-35S assume um papel equivalente do lado russo. Analisaremos o potencial, não taxativo, de ambas as aeronaves em um confronto direto sobre a Europa.

Por: Ricardo N. Barbosa

O Typhoon está lotado em esquadrões no Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha, totalizando por volta de 500 unidades. A Rússia contratou 98 Su-35S e recebeu aproximadamente 75 unidades até agora, com o última célula prevista para 2020. No mercado internacional, cada Typhoon sai por 110 milhões de dólares e cada Su-35S por 80 milhões de dólares.

Cockpit e consciência situacional

Tanto o Su-35S quando o Typhoon são aeronaves de quarta geração avançada, possuem um cockpit moderno dominado por um HUD e dois ou mais MFD (display multifunção). Os dois grandes displays do Su-35S são mais ergonômicos do que os 3 displays do Typhoon. O Typhoon, porém, possui um display montado no capacete (HMD) mais avançado do que a mira montada no capacete (HMS) do Su-35S.

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O cockpit do Typhoon é dominado por 3 MFDs.

Com um campo de visão mais largo os dois grandes displays do Su-35S ajudam a formar uma imagem mais nítida da situação tática do campo de batalha, enquanto isso o HMD do Typhoon aumenta a consciência situacional no combate aproximado ao projetar informações básicas de voo e combate diretamente na viseira.

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Dois grandes displays dominam o cockpit do Su-35S.

Em termos operacionais, porém, nem o HMD do Typhoon e nem os grandes displays do Su-35S, apesar de entregarem ganhos mensuráveis, são suficientes para garantir uma superioridade tática consistente de um sobre o outro, já que os sistemas correspondentes do adversário, apesar de mais simples, ainda são bastante funcionais.

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O HMD Striker II já está disponível para o Typhoon.

Como a maior parte das missões de combate são noturnas, o gap poderá tornar-se taticamente relevante e favorável ao Typhoon caso seus operadores adotem o novo HMD Striker II, que graças a uma câmera de visão noturna orgânica na posição ciclope dispensa os nada ergonômicos óculos de visão noturna (NVG).

Detecção e combate BVR

Com o objetivo de atrasar a detecção por parte do radar adversário e de melhorar a eficácia de suas contramedidas eletrônicas (ECM), ambas as aeronaves adotam soluções baixo observáveis (LO) para diminuir sua assinatura radar frontal (RCS), mas o Typhoon leva uma ligeira vantagem ao mascarar a face do motor com um duto de ar em “S” tratado com material absorvente de radar (RAM) nas paredes.

O RCS frontal em uma configuração limpa é de aproximadamente 0,5 a 1m² para o Typhoon e de 1 a 3m² para o Su-35S. O RCS menor do Typhoon é aproveitado principalmente para diminuir a necessidade de potência jammer (interferidor). Um RCS 3 vezes menor exige 3 vezes menos potência jammer para produzir um mesmo efeito interferente.

O Typhoon europeu possui um radar da varredura mecânica (CAPTOR-M) inferior ao radar PESA do Su-35S (N135 Irbis), já que a matriz com varredura eletrônica do Irbis proporciona ao Su-35S uma capacidade de rastreio superior, além de uma maior resistência á contramedidas eletrônicas (ECM). Essa realidade irá inverter-se na próxima década quando o radar AESA CAPTOR-E estiver plenamente operacional e implantado no Typhoon europeu.

Na prática, ambas as aeronaves, hoje ou no futuro, podem detectar uma a outra a uma distância grande o suficiente para evitar surpresas desagradáveis (+100km). A vantagem de um radar mais avançada de um lado ou do outro resulta principalmente em uma maior capacidade de resistir às contramedidas eletrônicas adversárias, ou seja, vai resistir melhor às tentativas de interferência eletromagnética do adversário.

O combate BVR (além do alcance visual) irá iniciar e dominar a esmagadora maioria dos engajamentos entre caças 4G avançados. Atualmente ambas as aeronaves possuem mísseis BVR equivalentes, R-77-1 no Su-35S e AIM-120C no Typhoon, ambos com alcance máximo na casa dos 100km.

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O R-77-1 é atualmente o principal míssil BVR do Su-35S.

“Antes de continuar, é importante lembrar que o alcance operacional útil de um míssil BVR é aproximadamente metade do alcance máximo teórico. A zona sem escapatória (NEZ) é menor ainda, possui 1/3 a 1/4 do alcance máximo.”

Desde o início de 2018 alguns esquadrões de Typhoon estão recebendo os primeiros mísseis Meteor com mais de 200km de alcance máximo, uma escala consideravelmente superior a do R-77-1 (110km), superior inclusive a do futuro míssil R-77M (160km).

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O Meteor está substituindo o AIM-120C nos Typhoons.

A expectativa do lado russo é que o R-37M seja capaz de nivelar a luta contra o Meteor, enquanto a versão de exportação RVV-BD possui 200km de alcance máximo a versão russa é especulada com até 300km. O ponto de interrogação atual é o estágio de integração do R-37M no Su-35S, nenhum Su-35S foi flagrado com o mesmo até o momento, além disso o R-37M não é tão otimizado contra aeronaves manobráveis quanto o Meteor, trata-se de uma evolução do míssil R-33 do interceptador MiG-31, que visava principalmente os grandes bombardeiros da OTAN. O Meteor e seu motor ramjet entregam um conceito mais moderno e capaz do que o R-37M, mas esse último pode ser suficiente para dispersar uma esquadrilha de Typhoons de suas intenções hostis.

Como observado, na arena BVR as aeronaves são quase equivalentes, mas com uma vantagem sensível para o Typhoon em virtude do radar AESA e principalmente pelo míssil Meteor. É importante destacar, porém, que o principal limitador da arena BVR é a capacidade de identificar o alvo a dezenas de quilômetros. Logo, a vantagem proporcionada pelo Meteor no BVR necessita ser acompanhada de uma capacidade de identificação antecipada do Su-35S, caso contrário ambas as aeronaves podem entrar em uma trocação de mísseis BVR. Nesse último caso, o Meteor ainda vai garantir uma ligeira vantagem, já que possui um NEZ maior e um perfil de voo modulado por um motor ramjet.

A primeira tentativa de identificação em um teatro BVR é feita principalmente pelos sistemas de alerta antecipado e controle, como aeronaves AEW&C e controle de interceptação em solo (GCI). O primeiro é utilizado principalmente, mas não somente, pelas forças da OTAN e o segundo pela defesa aérea russa. “Notar a importância dos meios de apoio”. Além dessa identificação inicial, normalmente é exigido pelo menos mais uma confirmação por parte de algum sistema on-board da aeronave de caça, como IFF ou FLIR.

Um sistema que pode ajudar na identificação antecipada do alvo, principalmente durante a noite, é o IRST presente em ambas as aeronaves, PIRATE no Typhoon e OLS-35 no Su-35S. O IRST é usado principalmente para detectar a emissão IR do alvo, mas também pode formar imagens IR para identificação visual.

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O PIRATE é o moderno IRST orgânico do Typhoon.

O PIRATE leva vantagem sobre o OLS-35 por utilizar um sensor térmico mais moderno, que é capaz de operar em duas bandas IR, enquanto o OLS-35 opera apenas em uma banda, mas nenhum dos dois pode identificar um alvo aéreo a mais de 40km.

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O OLS-35S localiza-se na frente do para-brisa do Su-35S.

Como o desempenho de sensores IR é fortemente afetados pelas condições climáticas. Em um dia chuvoso ou muito nublado, o alcance de identificação é até duas vezes menor do que a escala máxima. Logo, o IRST é um sistema complementar para identificação.

Com a vantagem proporcionada pelo Meteor, o Su-35S deve evitar ao máximo que o Typhoon consiga, através de suas medidas de apoio eletrônico (ESM), a confirmação de sua identidade, a ESM de um caça pode detectar e identicar uma fonte de radar além do alcance do próprio radar. A solução tática é manter o radar em stand-by a maior parte do tempo, mas isso exige o apoio de uma fonte externa para orientar a interceptação. Esse cenário pode ser facilitado caso o encontro ocorra dentro da fronteira russa e com a ajuda do controle de interceptação em solo.

Caso a identificação não possa ser evitada, o Su-35S pode valer-se de suas contramedidas eletrônicas (ECM) para atrasar o lançamento do Meteor. É neste momento que o radar AESA pode futuramente fazer a diferença a favor do Typhoon, o mesmo possui capacidade de contra-contramedidas eletrônicas (ECCM) muito mais robusta do que o CAPTOR-M e até mesmo do que o N135 Irbis do Su-35S. A ECCM avançada ajudará a queimar o bloqueio da ECM do Su-35S. Enquanto o CAPTOR-E não entra em operação, o Su-35S possui chances reais de dificultar a vida do Typhoon com suas contrameidadas eletrônicas baseadas no complexo Khibiny-M, com sorte pode diminuir de forma satisfatória a vantagem proporcionada pelo Meteor.

Como dito anteriormente, o radar mais moderno de um lado ou do outro garante principalmente a manutenção da consciência situacional em um ambiente eletromagnético contestado, já que o alcance de detecção é mais do que satisfatório para ambos os lados contra qualquer caça legado.

Combate WVR e dogfight

Caso o combate evolua para a arena visual (WVR), ou para uma fusão seguida de um dogfight, ambas as aeronaves estão equipadas com mira montada no capacete e mísseis HOBS (High Off-Boresight) capazes em engajar alvos em um ângulo amplo a partir do radome da aeronave interceptadora. Os mísseis HOBS mais modernos chegam a engajar alvos a até 90° Off-Boresight, ou seja, em um ângulo de 90° para qualquer lado do radome. O Typhoon pode utilizar o IRIS-T ou ASRAAM, enquanto o Su-35S está armado com a família R-73/74.

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A maioria dos operadores do Typhoon adotaram o IRIS-T.

Graças ao empuxo vetorado, o Su-35S possui um desempenho ótimo em manobras a baixas velocidades e em curvas horizontais, principalmente no combate 1 x 1, que exige menos conservação de energia (velocidade e/ou altitude) com ângulos de ataque mais acentuados. O Typhoon prioriza o desempenho ótimo a elevadas velocidades e altitudes, além disso a relação empuxo/peso entrega um excelente desempenho em manobras verticais e engajamentos multiaeronaves, que priorizam a conservação de energia.

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Desde os anos 80 a família Flanker adota o R-73/74.

A verdade é que o combate WVR ou dogfight é cada vez mais evitado, os mísseis HOBS aumentaram a probabilidade de um caça menos capaz subjulgar uma aeronave muito mais complexa e cara. No dogfight moderno não é surpresa um piloto bem treinado em um F-5 com míssil HOBS vencer um Typhoon ou Su-35S. Quando os envolvidos são aeronaves igualmente avançadas, o resultado é imprevisível, os pilotos costumam dizer que possuem 50% de chances de vencer. A vitória no dogfight moderno resume-se a um melhor posicionamento antes da fusão ou a evitar ser o primeiro homem a errar. O combate dura poucos segundos.

Conclusão

A conclusão é que ambas as aeronaves são bastante equivalentes, a vantagem estará com quem conseguir identificar primeiro o adversário, daí a importância dos meios de apoio como AEW&C e CGI . Caso ambos consigam uma identificação antecipada a dezenas de km, a vantagem inicial estará com o Typhoon, desde que armado com Meteor.

O Su-35S poderá utilizar futuramente o R-37M para nivelar-se com a dupla Typhoon/Meteor, sem o mesmo a vantagem BVR é ligeiramente cristalizada para o Typhoon, já que o Meteor é considerado o míssil BVR mais capaz do mundo. Em caso de combate aproximado, vence o piloto mais habilidoso e/ou quem entrar melhor posicionado antes da fusão no dogfight.

Mesmo com uma vantagem marginal no BVR para o Typhoon, o resumo da ópera é que ambas as aeronaves são capazes de conter uma a outra. Normalmente um piloto evita ao máximo qualquer embate que não seja claramente favorável ao mesmo, a não ser que ignorar o alvo ou evardir-se não seja uma opção.

7 comentários sobre “Sukhoi Su-35S vs Eurofighter Typhoon, dogfight sobre a Europa

  1. Mostra que a mídia se contradiz toda vez que faz um comparativo entre Russia e o Ocidente, onde fica claro que em muitos aspectos o ocidente corre para não ser surpreendido pelos avanços tecnológicos russos. Mostrando que o Urso nuca esteve dormindo.

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  2. Ricardo Nunes, você é um brincalhão. Cadê as fontes que ancoram as suas afirmações e conclusões?. Sem as referências bibliográficas, isto que você escreveu é somente achismo.

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    1. “Analisaremos o potencial, não taxativo, de ambas as aeronaves em um confronto direto sobre a Europa.” Como informei trata-se de uma análise não taxativa, ou seja, aberta a interpretações diferentes. No mais, foram usados premissas basicamente universais, como a inegável vantagem proporcionada pelo míssil scramjet Meteor, que foi o único responsável pela ligeira vantagem BVR do Typhoon. Enquanto o impacto dos HMS/HMD e mísseis HOBS é amplamente conhecido, mais uma vez, nenhuma informação nova ou que não seja facilmente encontra na rede.

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      1. Em 06/12/2018 a Sukhoi entregou o 100° Su 35 a Forca aérea Russa , então ele teria 100 e não 75 unidades…

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  3. Cabe lembrar da habilidade do Typhoon de supercruise que o da mais ainda vantagem no combate BVR.
    Ja que pode usar essa habilidade para aumentar a distancia de disparo.

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