Nível de prontidão do programa F-35

Entre maio e novembro de 2018 a frota de F-35 consegui uma taxa de Capacidade Total de Missão de 27% e uma Capacidade de Missão de 52%, mas que números são esses e qual o estado atual da frota frente aos objetivos do programa e em relação a outras aeronaves?


Por: Ricardo N. Barbosa*


O F-35 é o programa militar mais caro de todos os tempos, um dos mais ambiciosos e provavelmente um dos mais transparentes. O amplo acesso à informação vem causando algumas distorções de julgamento, verdade seja dita, por uma parte do público normalmente carente de informação e sem um senso crítico devidamente apurado sobre o tema. Um questionamento recorrente ocorre justamente sobre a prontidão de combate do F-35, quantas aeronaves estão disponíveis a qualquer momento.

Nível de prontidão atual

Segundo o GAO (Government Accountability Office) de abril de 2019, entre maio e novembro de 2018 a família F-35 conseguiu uma Capacidade Total de Missão (CTM) de 27%, ou seja, 27% das aeronaves alocadas nas unidades operacionais estavam disponíveis para realizar qualquer tipo de missão. Enquanto isso a Capacidade de Missão (CM) no mesmo período foi de 52%, ou seja, 52% das aeronaves alocadas nas unidades operacionais estavam disponíveis para realizar com segurança pelo menos uma missão específica. Tanto a CTM quanto a CM desconsideram as aeronaves que estão em depósito sofrendo modificações, incluindo as aeronaves em depósito, (Disponibilidade de Veículo Aéreo – DVA), o F-35 conseguiu 45,8% de disponibilidade.

Importante destacar que os números de disponibilidade incluem os F-35 dos EUA e internacionais. Observar também que o F-35C, que ainda não estava operacional, teve o pior desempenho e puxou a disponibilidade da família para baixo, principalmente de Capacidade Total de Missão e Disponibilidade de Veículo Aéreo.

Uma aeronave com Capacidade de Missão pode, por exemplo, caso tenha um problema no designador laser de alvos, não estar habilitada para missões de ataque ao solo com bombas guiadas a laser, mas estar habilitada para missões de superioridade aérea ou ataque ao solo com bombas guiadas por GPS. Nesse caso, trata-se de uma aeronave que não está com Capacidade Total de Missão, mas “apenas” com Capacidade de Missão. Atualmente as forças em todo o mundo utilizam como principal métrica de disponibilidade a Capacidade de Missão, já que a Capacidade Total de Missão, apesar de igualmente importante, não define quantas aeronaves podem ser, de fato, empregadas em combate. Logo, o nível de prontidão atual da família F-35 é de 52%.

A meta do programa é uma taxa de 75% de Capacidade de Missão, isso significa que a família F-35 precisa elevar em 50% a sua disponibilidade para cumprir a meta do programa. Este desempenho de aeronaves abaixo do desejado não se deve somente à aeronave, mas em grande parte à escassez de peças sobressalentes e à dificuldade de gerenciar e movimentar peças em todo o mundo:

Falta de peças de reposição e capacidade limitada de reparo. As aeronaves F-35 não conseguiram voar quase 30% do período de maio a novembro de 2018 devido à falta de peças de reposição, o objetivo do programa é 10%, ou seja, não voar no máximo 10% do tempo por falta de peças de reposição. Além disso, o Departamento de Defesa (DOD –  Department of Defense) teve uma carteira de reparos de cerca de 4.300 peças, em que o tempo médio para reparo a nível de depósito de uma peça foi de 180 dias, enquanto o objetivo do programa é levar no máximo 90 dias.

Peças incompatíveis para a implantação de aeronaves. A DOD compra certos conjuntos de peças F-35 anos antes para dar suporte a aeronaves em implantações, inclusive em navios. Mas as peças não estão correspondendo totalmente às necessidades dos serviços militares porque as aeronaves F-35 foram modificadas com o tempo. Por exemplo, 44% das peças compradas eram incompatíveis com as aeronaves que o Corpo de Fuzileiros Navais utilizou em uma implantação recente.

Uma rede global imatura para mover partes do F-35. As redes do DOD para mover partes do F-35 em todo o mundo são imaturas, e os clientes estrangeiros do F-35 passaram por longos períodos de espera por peças necessárias para reparar as aeronaves.

Perspectivas para o futuro

Os desafios na cadeia de suprimentos do F-35 são enormes, ela levará pelo menos uma década para consolidar-se e atingir um nível de eficiência adequado, atualmente, por exemplo, ainda não se sabe exatamente qual a frequência com que determinadas peças precisam ser substituídas ou reparadas. O processo de amadurecimento da logística, do estoque, da cadeia de suprimentos e capacidade de depósito de uma aeronave de caça é um processo que leva tempo, muito tempo na verdade.

O programa F-35 está tomando várias ações para tentar aumentar a disponibilidade de peças de reposição, incluindo medidas para aumentar a capacidade dos fornecedores de produzir peças para atender aos requisitos de manutenção, melhorar o tempo de entrega de peças sobressalentes e lidar com a confiabilidade de certas partes que estão falhando com mais frequência do que o esperado.

O DOD identificou uma escassez específica de peças que está causando a maior degradação da capacidade da aeronave e está desenvolvendo estratégias de mitigação de curto e longo prazo para aumentar a quantidade e a confiabilidade dessas peças. Por exemplo, o Departamento de Defesa descobriu que o revestimento especial do dossel do F-35, que permite que a aeronave mantenha-se stealth, está se degradando com mais frequência do que o esperado e que o fabricante não é capaz de produzir revestimentos suficientes para atender a demanda. Para enfrentar esse desafio, o programa está procurando fontes de manufatura adicionais para o dossel e está considerando mudanças no projeto (entende-se novo material).

O GAO observou que o programa F-35 planeja no curto prazo comprar peças sobressalentes suficiente para diminuir de 30 para 20% o tempo que as aeronaves não podem voar por falta de peças, este número seria suficiente para, em conjunto com uma indisponibilidade de 10% para manutenção, elevar a Capacidade de Missão da frota para 70%.

As aeronaves dos lotes 2 a 5 (o último encomendado foi o 11) estão enfrentando mais problemas de prontidão do que os lotes subsequentes, pois utilizam peças menos confiáveis e com menor disponibilidade. Enquanto o lote 2 a 5 possui uma taxa de 35% de Capacidade de Missão, os lotes posteriores possuem 60% de Capacidade de Missão. Com o passar do tempo, conforme a porcentagem de aeronaves de lotes posteriores sejam incorporadas, é esperado um aumento natural de prontidão de toda a frota. Além disso, o DoD pretende substituir algumas peças não confiável dos primeiros lotes.

Nível de prontidão de outras aeronaves

Atualmente os caças 4G da Força Aérea Americana (USAF), F-15C/D e F-16C/D, que surgiram na década de 70 e 80 respectivamente, conseguem manter na USAF cerca de 70% de disponibilidade, mas tratam-se de aeronaves com 3 a 4 décadas de maturidade na cadeia de suprimentos. No início dos anos 80 os programas 4G da USAF também sofreram com as escarces de peças de reposição, operando com uma disponibilidade próxima dos 50%.

No caso de aeronaves de concepção mais nova, após a década de 90, enquanto o F-35A mantem atualmente 52% de Capacidade de Missão e 47% de Disponibilidade de Veículo Aéreo, o Dassault Rafale, um caça 4.5G, conseguiu 48,5% de disponibilidade na Força Aérea Francesa.  Em 2017, apenas 39 dos 128 caças Eurofighter Typhoon da Força Aérea Alemã estavam disponíveis para missões, ou seja, tinha 30% de disponibilidade.  Em 2017, enquanto o F-35A manteve 54% de Capacidade de Missão, o F-22 chegou a “apenas” 49% de disponibilidade. As três aeronaves (Rafale, Typhoon e F-22) possuem uma cadeia logística e de manutenção 10 anos mais madura do que a do F-35, mesmo assim não apresentam uma disponibilidade melhor.

Paras as aeronaves de origem russa a coisa não é melhor. Entre 2010 e 2014 o nível de disponibilidade do MiG-29K na Índia variou entre 15,9 e 37,63%. A Malásia está conseguindo manter apenas 22% de disponibilidade  em sua frota de Su-30MKM. Já a India vem conseguindo manter aproximadamente 50-55% de disponibilidade na sua frota de Su-30MKI.

Conclusão

Dentro das metas de disponibilidade do programa, o F-35 ainda possui um grande desafio pela frente, principalmente por tratar-se de uma linha de produção em franca expansão, o número de aeronaves produzidas anualmente chegou a aumentar 40%.

A menos que haja alguma falha séria com o hardware, a disponibilidade geralmente varia em função do custo de manutenção (dinheiro, tempo e mão de obra). Se você quiser aumentar a disponibilidade, precisará investir em logística, estoque, cadeia de suprimentos e capacidade de depósito. Um equilíbrio deve ser encontrado entre disponibilidade e custos de manutenção.

Analisando, porém, o programa F-35 fora das próprias metas, que normalmente não são cumpridas em sua totalidade em grande parte dos programas de sistema de armas avançadas, os desafios mostram-se relativamente naturais, principalmente para um vetor de quinta geração.


*Ricardo N. Barbosa é Técnico do Seguro Social e 3º Sargento da Reserva não Remunerada da FAB. E-mail: rnbeear@hotmail.com

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