Vympel R-77 (AA-12 Adder)

O combate aéreo além do alcance visual (BVR) alcançou um novo patamar com o programa de desenvolvimento do míssil ar-ar de médio alcance AIM-120 AMRAAM pelos Estados Unidos nos anos 80. A URSS, porém, respondeu rapidamente à nova ameaça com o míssil Vympel R-77, que em alguns aspectos até superava os primeiros AIM-120.


Por: Ricardo N. Barbosa


O míssil Vympel K-77 (izdeliye 170), um equivalente russo do AIM-120 AMRAAM americano, foi lançada pela primeira vez a partir de um MiG-29 em maio de 1984 e foi oficialmente comissionado como R-77 em 23 de fevereiro de 1994 (O “K” é usado para mísseis soviéticos/russos em fase de desenvolvimento e o “R” para mísseis operacionais).

A produção em série do R-77 seria lançada na fábrica da Artem em Kiev na Ucrânia, mas apenas um pequeno lote de avaliação foi concluído antes do colapso da URSS. Devido a questões orçamentárias nos anos 90, apenas um pequeno número de mísseis R-77 entrou no inventário da Força Aérea Russa (200 a 300 unidades), basicamente para fins de testes. Em um inventário realizado em 1998, a maioria dos mísseis tinham sido utilizados em treinamento ou vendidos para terceiros, provavelmente China e/ou Índia.

Com um corpo mais largo e motor foguete maior, o R-77 entregava um alcance 30% superior ao AIM-120A (primeiro AIM-120) e podia atingir uma velocidade de Mach 4. O alcance máximo era de 80km contra um bombardeiro e 50km contra um caça. Ele é transportado sob a aeronave em um trilho de lançamento de míssil APU-170 (raramente) que aciona o motor do míssil ainda no trilho  ou unidade de ejeção de míssil AKU-170 que “ejeta” o míssil com auxílio de dois pistões antes do acionamento do motor.

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Unidade de ejeção AKU-170 em um Su-35S.

O R-77 foi equipado com asas longas e estreitas, mas sua característica mais marcante são as aletas de grade dobráveis. Embora as aletas de grade produzam maior arrasto aerodinâmico e aumentam a assinatura radar em comparação com as superfícies de controle convencionais, o desempenho supersônico e em grandes ângulos de ataque mostrou-se compensador. O sistema também produz muita força de controle com pequena deflexão, necessitando assim de sistemas de controle interno menores. Na época, foi decidido que as vantagens das aletas de grade superavam suas desvantagens. A capacidade de rebater as aletas de grade também ajudaria no manuseio e no transporte interno no bombardeiro Tu-160 (não foi integrado) e aeronaves de caça 5G da URSS (foram canceladas). 

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As aletas de grade são a marca da família R-77.

Ainda nos anos 90, a unidade de produção de testes da Vympel em Moscou lançou outra linha de produção do R-77 para atender o mercado externo, este R-77 de exportação foi designado RVV-AE (Raketa Vozdukh Vozdukh – Aktivnaya Eksportnaya ou míssil ar-ar ativo para exportação; izdeliye 190). A primeira encomenda do RVV-AE foi da Malásia, seguida pela produção para a China, Índia, Iêmen, Argélia e outros países (inclusive o Peru e Venezuela na América do Sul). Simultaneamente a produção do buscador do míssil foi transferida da fábrica da radar em Kiev (Ucrânia) para a empresa Istok, em Fryazino, perto de Moscou.

Em 2006, a produção do RVV-AE totalizou aproximadamente 4.000 unidades, incluindo 1.600 para a Índia, 1.500 para a China e 400 para a Argélia. Os dados para os anos subsequentes estão fragmentados. Por exemplo, em 2014, 168 mísseis foram entregues à Índia. Estimasse que até hoje aproximadamente 8.000 unidades do RVV-AE tenham sido produzidas, a maioria para Índia e China. O míssil equipa principalmente caças MiG-21, MiG-29 e Su-30 fora da Rússia, já que esta última não adotou o R-77/RVV-AE. Nos anos 2000, a Vympel anunciou novas versões guiadas por IR e radar passivo, mas elas não chegaram ao estágio operacional.

Antes do disparo, o sistema de controle de tiro da aeronave deve passar a telemetria do alvo (posição angular, distância e velocidade) para o míssil. O míssil pode ser lançado pela unidade de ejeção de míssil AKU-170E e pelo trilho de lançamento de míssil APU-170E (o “E” designa material de exportação). O alcance máximo é o mesmo do R-77, 50km (contra um caça) e 80km (contra um bombardeiro), e pode ser disparado com uma diferença de até 10.000m de altitude em relação ao alvo. 

Na fase inicial de voo o míssil é guiado por um piloto automático com sistema de navegação inercial (INS) até o ponto previsto de interceptação (navegação proporcional) e não diretamente contra o alvo. Caso a aeronave não consiga passar os parâmetros exatos do alvo, alguns modos de navegação “especiais” e menos efetivos  podem ser usados para tentar atingir o alvo. 

Em distâncias maiores, uma atualização de meio curso pode ser feita por um sistema de datalink (50km de alcance) com a aeronave lançadora que atualiza a posição do alvo para o INS durante o percurso, melhorando assim a precisão da navegação e efetividade contra alvos manobráveis. A aeronave, porém, deve manter o alvo iluminado pelo seu próprio radar. Esta fase dura cerca de 80% do voo. Se a aeronave deixar de iluminar o alvo, o míssil segue via INS até o último ponto previsto de interceptação. Se o alvo estiver a menos de 1,5 vezes do alcance do buscador (16 + 8 = 24km), o míssil não requer atualizações de meio curso.

Na fase terminal de voo, o buscador por radar ativo 9B-1348E (izdeliye 50E) é ligado, trata-se de um radar monopulso Doopler operando na Banda-J (X, Ku) projetado pela empresa Agat de Moscou.; ele pode detectar um alvo com uma seção transversal radar (RCS) de 5m² (um caça comum) a uma distância de 16km. Ao encontrar contramedidas eletrônicas (ECM) que não podem ser combatidas pelo sistema de orientação do míssil o buscador muda para um modo de orientação por radar passivo e engaja a fonte de interferência (Home-on-Jam ou HOJ). Embora o modo de orientação HOJ não seja tão preciso quanto o radar ativo, ainda é melhor do que simplesmente perder o alvo.

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Buscador 9B-1348E com antena plana ranhurada.

O RVV-AE pode puxar até 45g de carga e atingir 40° de ângulo de ataque em manobras contra alvos manobrando a até 12g. O fusível é acionado por impacto ou proximidade a laser. A ogiva é fabricada como um feixe de hastes com micro-cargas moldadas. As hastes são conectadas de tal forma que, após a detonação, formam um anel firme e expansível, isso garante uma alta capacidade de destruição de alvos.

O prazo de validade do RVV-AE dentro do contêiner vedado fornecido pela fabricante e armazenado em galpões climatizados é de 8 anos. No outro extremo, o prazo de validade cai para apenas 1 ano quando armazenado fora do contêiner sob um galpão aberto. Carregado em uma aeronave a vida útil é de 50h de voo ou de 20 pousos e decolagens, o que ocorrer primeiro, ou de apenas 3h de voo quando ativado.

Os operadores do RVV-AE encontraram problemas de confiabilidade ao longo da vida útil do míssil. Em 2009, por exemplo, a mídia divulgou que um relatório do Controlador e Auditor Geral Indiano observou que quase metade dos mísseis da Força Aérea Indiana testados não cumpriram os objetivos durante as avaliações ou falharam nos testes de solo porque estavam envelhecendo mais rápido do que o previsto.

O R-77-1 (izdeliye 170-1, designação OTAN: AA-12B Adder) é uma versão atualizada conhecida como atualização de ‘primeiro estágio’ ou ‘pequena’ atualização. Os primeiros quatro testes do K-77-1 foram concluídos em dezembro de 2004. Mais tarde, mais seis mísseis de avaliação foram feitos para o Su-27SM; contudo, a aeronave em si ainda não estava pronta. Somente em setembro e outubro de 2010 foram realizados os dois primeiros testes bem sucedidos do K-77-1 realizados a partir de um Su-27SM3, sendo este considerado como a qualificação estadual. Também em 2010, a Vympel em Moscou começou a produção em série do míssil que agora é um dos principais produto da empresa.

Em comparação com o R-77 básico, o R-77-1 é ligeiramente maior (3,60 vs 3,71m) e mais pesado (177 vs 190Kg). Além disso, as asas trapezoidais centrais tiveram sua envergadura ampliada de 400 para 420mm enquanto as aletas de grade tiveram a envergadura diminuída de 700 para 680mm. O alcance subiu de 80 para 110km. O software para o sistema de controle do míssil foi atualizado. O buscador melhorado 9B-1348-1 (izdeliye 50-1) tem um transmissor mais potente e um receptor mais sensível; a resistência à interferência foi melhorada. A espoleta continua sendo por impacto ou aproximação a laser (parece existir uma variante com espoleta de aproximação radar). Por toda suas características, o R-77-1 é considerado um análogo do AIM-120C-7 AMRAAM americano.

A Força Aérea Russa encomendou seu primeiro lote de mísseis R-77-1 em 2009, em conjunto com sua compra inicial do Su-35S, as entregas dos mísseis começaram em 2011; dois lotes adicionais foram requisitados em 2012 e 2015, o contrato de 2015 valeu 226 milhões de dólares, o que equivale a mais de 220 mísseis. Em fevereiro de 2016, mísseis R-77-1 operacionalmente implantados foram observados pela primeira vez em um Su-35S. No entanto, a partir de abril de 2017, a grande maioria dos aviões de caça russos fotografados na Síria e os que realizam interceptações aéreas na Europa continuam a ser predominantemente armados com o R-27. Deve levar pelo menos uma década até que o R-77-1 substitua de fato o obsoleto R-27 e suas variantes nas fileiras russas.

RVV-SD (Sredney Dalnosti, médio alcance) é a versão do R-77-1 oferecida para exportação. 

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O RVV-SD é visualmente quase idêntico ao RVV-AE.

Visualmente o R-77 (RVV-AE) e o R-77-1 (RVV-SD) são praticamente iguais, mas a diferenciação pode ser feita pelas pequenas saliências na base das aletas de grade. O R-77 possui duas saliências em cada base, uma frontal e uma traseira. O R-77-1 possui apenas as saliências traseiras.

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O RVV-SD possui apenas as saliências traseiras.

Atualmente (início de 2020) a China parece ser o único operador do R-77-1/RVV-SD fora da Rússia. A China encomendou um número indeterminado de mísseis juntamente com a compra de 24 caças Su-35SK para a sua Força Aérea (PLAAF).

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Soldados chineses manejando o RVV-SD.

Diferente do AIM-120 e suas várias versões, a família R-77 nunca foi testado em combate. De modo que não é possível trassar um paralelo de desempenho. Mas a percepção é de que o desenvolvimento e crescimento mais lento e a falta de parâmetros de desempenho em combate real tenham prejudicado ao longo dos anos o posicionamento do R-77 em relação ao AIM-120. Enquanto, por exemplo, a Rússia opera atualmente o R-77-1 (segunda geração do R-77), os EUA já operam o AIM-120D (quarta geração do AIM-120) com mais alcance e sistema de navegação e orientação mais modernos.

O K-77M (projeto 180) é o míssil da atualização de “segundo estágio” destinado ao transporte interno no compartimento de armas do Sukhoi Su-57; dois mísseis em cada um dos dois compartimentos ventrais, quatro no total. Externamente, a mudança mais visível em comparação com as versões anteriores é a substituição das aletas de grade por aletas de cauda normais. A principal razão por trás dessa mudança é reduzir o arrasto aerodinâmico do míssil e a assinatura radar.

Segundo uma patente divulgada, o míssil, além da asa principal (2 no diagrama abaixo), poderá adicionar uma segunda superfície aerodinâmica fixa (4) antes das aletas direcionais (3), o que permitiria resolver o principal problema com os mísseis de longo alcance, a capacidade de manobrar em velocidades subsônicas. Por exemplo, o americano AIM-120 e sua recente modernização, o AIM-120D, não são capazes de manobrar a velocidades inferiores a 1.200km/h (ao tentar manobrar, o aumento do ângulo de ataque faz com que o míssil comece a desintegrar-se).

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Diagrama do K-77M com as novas aletas direcionais.

O buscador com radar ativo produzido pela Istok tem um alcance máximo de 25km contra um alvo com RCS de 5m². O novo motor de combustível sólido e impulso duplo (o motor do RVV-AE e RVV-SD possui impulso único) possui uma pausa variável entre os impulsos e uma reserva de combustível maior. O K-77M possui um novo datalink bidirecional com muito menos tempo entre as correções, sistema de controle inercial mais preciso e baterias mais potentes com 150 segundos de fornecimento de energia contra 100 segundos do R-77.

O K-77M nunca foi exibido publicamente e suas características detalhadas não são conhecidas. Alegadamente, é um pouco mais longo e pesado do que o R-77-1; seu alcance máximo é reivindicado ser pelo menos duas vezes maior que o RVV-AE (totalizando 160km), algumas projeções apontado para até 190Km. De acordo com a Vympel, o K-77M será equivalente ao AIM-120D AMRAAM americano, superando-o em alguns aspectos. As unidades de teste do míssil K-77M estão em produção.

O míssil izdeliye 180-PD (Priamotochnyi Dvigatel ou motor ramjet) com um motor foguete-ramjet, uma contrapartida do europeu MBDA Meteor, está sendo desenvolvido pela Vympel por iniciativa da própria da empresa, mas não existe qualquer previsão para sua adoção e implantação.

Durante vários anos, a Vympel desenvolveu o izdeliye 270 ou míssil ar-ar de médio e longo alcance da próxima geração, que substituirá o K-77M no futuro, mas não há informações sobre o estado atual do projeto.

Especificações técnicas

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*Obs: O alcance máximo de um míssil BVR vai variar fortemente em virtude das condições de engajamento, como sentido do deslocamento, altitudes e velocidades da aeronave lançadora e do alvo. O alcance de 80km para o RVV-AE ocorre com a aeronave lançadora e o alvo em aproximação frontal, ambos em velocidades subsônicas e voando a 15.000m de altitude. Com a aeronave lançadora e o alvo ao nível do mar o alcance cai para aproximadamente 16km; ou 4km perseguindo o alvo pelo seu aspecto traseiro. Se o alvo manobrar essas escalas são ainda menores.


*Ricardo N. Barbosa é Técnico do Seguro Social e 3º Sargento da Reserva não Remunerada da FAB. E-mail: rnbeear@hotmail.com

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